Carta de despedida ao meu coração
Arrancaram meu
coração e me jogaram
numa banheira
cheia de gelo. Eu tinha
algo que me pesava
no peito (e não eram
têtas!), mas agora
só tenho uma cicatriz
que corre a profunda superficialidade
da pele. Ah, meu pesado
coração de chumbo
embebedado em
sangue de mercúrio, é incrível
(de não se crer, mesmo!) o
quanto eu não sinto
tua falta enquanto
vejo esse sol se pôr
nesse céu de
cobre e estanho.
Agora, ao lado dessa
vadia ibitinguense esticada
sem roupas numa cama
amarelada, não consigo
deixar de pensar o quanto
você era um trambolho
inútil no meu corpo
em que a guerra entre
testículos começava
a se manifestar.
Por longos e longos anos,
séculos e milênios te perseguiram
com a grandeza da metáfora
do amor, da vida, do pulsar
das emoções manifestas, dos
devaneios abstratos por trás
de um par de seios (quanta bobagem!,
os seios eram o próprio
devaneio). Por muito
tempo você foi o fodão
de todos os poemas
sentimentais; ao lado da
lua, você foi a estrela, o astro
de todos os espetáculos
do clichê e da infância da
carne.
Mas agora, meu velho, você não
serve pra porra
nenhuma, sequer vai
ser lembrado com menção
honrosa, prêmio de consolação,
palmas premeditadas pelo
produtor da premiação. Foi-se
seu tempo,velho amigo de
poesia, e você não passa de
um músculo inútil, de um
primo bastardo do
mamilo masculino.
Ouso dizer, com a mesma língua
que diz as coisas mais belas
e toca com carinho o entrepernas
de putas-donzelas, que você
não serve nem pra
um poeminha
sobre taquicardia.
Você, amigo, que
sempre esteve perdido e
sempre perdeu nessa trajetória
de amores adolescentes, agora
perdeu-se a si mesmo quando
deixei que te levassem embora
na noite passada.
Desculpe se não
lutei por você, se não me
apeguei à paixão e resisti
pra que aquela japonesinha
não te levasse como
troféu e te colocasse num
pote de picles. É que ontem,
acordando ao lado dessa garota
especial que sequer
sei o nome, me toquei
que na estranha anatomia
das metáforas, não há personagem
que merecesse ser mais homenageado
que a uretra.
Sabe, cara... você
é muito cheio de si,
se incha e se acha o último
pedaço da torta de morangos,
se embebeda de sangue e
acha bonito quando falam
teu nome por qualquer
coisa à toa. Você é um fresco
muito falso, cara; é praticamente uma
Rita Cadilac chupando
um cacete pelo sonho
de dignidade e casa
própria. Sem contar
aquela sua mania de
achar que é o próprio
amor encarnado no
calor da carne.
A uretra é muito mais
legal!, trocentas vezes
mais bacana! Por ela correm os
ricos e os pobres, o mundo
e o sub-mundo, o amor
e o ódio, teus filhos
e o lixo do metabolismo. É
na uretra, solitária esquecida,
estrada fantasma dos
poemas apaixonados, que
o amor verdadeiro
se manifesta e inunda e fode e funde
o mundo de fora
com o mundo
de dentro. É ali, nos
trilhos viscosos da
alegria, que a vida
de esperma e juventude
se confunde
com a morte de
urina que amarela
os lençóis da velhice. Sacou, meu velho? A uretra
pega infecção, está exposta
ao nojo e à ingratidão. E você
está aí, protegido por quem
sequer te acariciou
com as
mãos.
Eu trocaria todos os corações
do mundo por uma
única uretra. Talvez por
isso eu tenha deixado
você ir embora, meu
velho amigo, junto com
aquele pôr-do-sol.
Enfim minhas costas não
doem: é um peso a menos
sobre meus nervos. Me sinto
leve como uma bolinha
de papel que cai dum hospital metropolitano.
Onde quer que esteja,
seja lá com quem, tomara que
você seja feliz como todos
os corações sempre querem
ser. Tomara, cara, que você
finalmente seja feliz em
seu sonho platônico.
Eu pensarei em você com carinho
quando fumar
meu próximo cigarro e apagá-lo
em meus pulmões. Eu pensarei
com carinho em nossos dias
juntos toda vez que gozar
em uma vadia
qualquer. Eu pensarei
em você como quem
vê fotografias velhas
guardadas em
caixas de
sapato.
coração e me jogaram
numa banheira
cheia de gelo. Eu tinha
algo que me pesava
no peito (e não eram
têtas!), mas agora
só tenho uma cicatriz
que corre a profunda superficialidade
da pele. Ah, meu pesado
coração de chumbo
embebedado em
sangue de mercúrio, é incrível
(de não se crer, mesmo!) o
quanto eu não sinto
tua falta enquanto
vejo esse sol se pôr
nesse céu de
cobre e estanho.
Agora, ao lado dessa
vadia ibitinguense esticada
sem roupas numa cama
amarelada, não consigo
deixar de pensar o quanto
você era um trambolho
inútil no meu corpo
em que a guerra entre
testículos começava
a se manifestar.
Por longos e longos anos,
séculos e milênios te perseguiram
com a grandeza da metáfora
do amor, da vida, do pulsar
das emoções manifestas, dos
devaneios abstratos por trás
de um par de seios (quanta bobagem!,
os seios eram o próprio
devaneio). Por muito
tempo você foi o fodão
de todos os poemas
sentimentais; ao lado da
lua, você foi a estrela, o astro
de todos os espetáculos
do clichê e da infância da
carne.
Mas agora, meu velho, você não
serve pra porra
nenhuma, sequer vai
ser lembrado com menção
honrosa, prêmio de consolação,
palmas premeditadas pelo
produtor da premiação. Foi-se
seu tempo,velho amigo de
poesia, e você não passa de
um músculo inútil, de um
primo bastardo do
mamilo masculino.
Ouso dizer, com a mesma língua
que diz as coisas mais belas
e toca com carinho o entrepernas
de putas-donzelas, que você
não serve nem pra
um poeminha
sobre taquicardia.
Você, amigo, que
sempre esteve perdido e
sempre perdeu nessa trajetória
de amores adolescentes, agora
perdeu-se a si mesmo quando
deixei que te levassem embora
na noite passada.
Desculpe se não
lutei por você, se não me
apeguei à paixão e resisti
pra que aquela japonesinha
não te levasse como
troféu e te colocasse num
pote de picles. É que ontem,
acordando ao lado dessa garota
especial que sequer
sei o nome, me toquei
que na estranha anatomia
das metáforas, não há personagem
que merecesse ser mais homenageado
que a uretra.
Sabe, cara... você
é muito cheio de si,
se incha e se acha o último
pedaço da torta de morangos,
se embebeda de sangue e
acha bonito quando falam
teu nome por qualquer
coisa à toa. Você é um fresco
muito falso, cara; é praticamente uma
Rita Cadilac chupando
um cacete pelo sonho
de dignidade e casa
própria. Sem contar
aquela sua mania de
achar que é o próprio
amor encarnado no
calor da carne.
A uretra é muito mais
legal!, trocentas vezes
mais bacana! Por ela correm os
ricos e os pobres, o mundo
e o sub-mundo, o amor
e o ódio, teus filhos
e o lixo do metabolismo. É
na uretra, solitária esquecida,
estrada fantasma dos
poemas apaixonados, que
o amor verdadeiro
se manifesta e inunda e fode e funde
o mundo de fora
com o mundo
de dentro. É ali, nos
trilhos viscosos da
alegria, que a vida
de esperma e juventude
se confunde
com a morte de
urina que amarela
os lençóis da velhice. Sacou, meu velho? A uretra
pega infecção, está exposta
ao nojo e à ingratidão. E você
está aí, protegido por quem
sequer te acariciou
com as
mãos.
Eu trocaria todos os corações
do mundo por uma
única uretra. Talvez por
isso eu tenha deixado
você ir embora, meu
velho amigo, junto com
aquele pôr-do-sol.
Enfim minhas costas não
doem: é um peso a menos
sobre meus nervos. Me sinto
leve como uma bolinha
de papel que cai dum hospital metropolitano.
Onde quer que esteja,
seja lá com quem, tomara que
você seja feliz como todos
os corações sempre querem
ser. Tomara, cara, que você
finalmente seja feliz em
seu sonho platônico.
Eu pensarei em você com carinho
quando fumar
meu próximo cigarro e apagá-lo
em meus pulmões. Eu pensarei
com carinho em nossos dias
juntos toda vez que gozar
em uma vadia
qualquer. Eu pensarei
em você como quem
vê fotografias velhas
guardadas em
caixas de
sapato.

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