9.8.07

Cancrocronóide

A cama era onde curtia em seus dias mofados. A velha lembrava um grande e enrugado pepino boiando na conserva de um pote de picles (isso me lembra que meu amigo Arthur costumava dizer que "picles" é a palavra mais feia da língua portuguesa). Não cheirava a vinagre, mas havia algum ácido em vapores que invadia aquele lugar: talvez o resto de um vómito, ou um peido que escapou debaixo das cobertas da velha; quem sabe não era a urina que amarelava a visão daquele quarto imundo.

Cinco horas e cinquenta e nove segundos de uma manhã gelada, e lá estava Maria Conseição acordando novamente um minuto antes do despertador tocar. Era um rádio-relógio que tinha na cabeceira da cama, grande e assustador - parecia com uma peça de nave alienígina que caiu na atmosfera e foi encontrada por Rafael, seu neto maconheiro que havia dado o anacrônico presente na semana passada, a mesma em que o diabo entrou na casa da velha.

Foi de tardezinha quando Maria Conseição invadiu, com a bengala na mão, o apartamento vizinho do filho gritando "socorro, socorro, estou morrendo, estou morrendo". Escorrendo ranho e sangue, a velha segurava sobre o nariz estourado com uma toalha amarelada que rapidamente enxarcou: era feio como o alface da minha merda que bóia sobre a água da privada.

- Deus! Ligue pro hospital, Julia! Minha mãe está morrendo - disse o filho da velha para a esposa.

- Ai, eu não aguento com sangue, Roberto... tire essa velha de perto de mim... acho que vou vomitar... acho que vou desmaiar...

A velha gritava um gemido rouco e fraco: era a morte, ela a sentia. O diabo havia lhe avisado alguns dias antes, quando estava batendo a bengala no chão e uma xícara caiu do armário. Era o aviso, os cacos da própria velha. O diabo manda o recado: vai morrer, velha, e que Deus tenha piedade. Agarrou-se ao terço que carrega no bolso e chorou sem parar por cinco minutos as lágrimas que se esforçavam para escapar daquele corpo seco e enrugado.

Chegando ao pronto socorro, Roberto gritou desesperadamente "minha mãe está morrendo!, minha mãe está morrendo!". Quando a enfermeira chegou e mandou aguardar o médico que estava ocupado atendendo uma outra senhora, o filho da velha ameaçou a enfermeira com o canivete que costumava carregar no bolso.

- A senhorita trate de chamar o médico agora!, antes que eu faça uma loucura.

Com medo, a jovem correu pra dentro chamar o médico. Enquanto Dr. Jonas atendia a velha estancando o sangramento do nariz com um simples pedaço de gaze preso com esparadrapo, a enfermeira ligou para a polícia explicando o ocorrido. Chegaram numa viatura e levaram Roberto pra delegacia, enquanto a velha foi deixada no hospital.

- Por que, doutor? Por que comigo o diabo apronta? Logo comigo, que sempre fui boa por toda a vida.

- A senhora vai passar bem. Provavelmente é um problema de sangue fino. Nada grave, minha senhora. Se a senhora quiser, pode até doar o coração, de tão forte que está. É só parar de tomar esses montes de aspirina pra que seu sangue volte a engrossar.

Um táxi chegou à porta do hospital para levar a velha para casa. O carro estava limpinho, e o motorista, com medo de que o sangue da velha o sujasse por dentro, puxou um plástico sobre o banco e a levou para casa. A corrida custou 23 reais e 60 centavos, mas a velha só pagou 23. Pouco dinheiro pelo sofrimento de ter que ouvir as insistentes lamentações de Dona Maria Conceição, que contou todo o ocorrido durante o longo caminho de 10 quilómetros que percorreram na cidade.

- O senhor sabe que só estou viva porque Deus botou sua mão em mim. O diabo está sempre a espreita. O doutor disse que tenho o coração tão bom que eu poderia até doá-lo, se quisesse. Diga se isso não é porque Deus me protege? Diga se isso não é obra de Deus?

O motorista concordou com um leve movimento da cabeça. Não conseguia pensar em nada além daquele mau cheiro insuportável.

No outro dia, saiu no jornal que um louco invadiu o hospital com o canivete. Ele havia sido preso e não tinha direito a fiança. Uma semana mais tarde, o jornal soltou uma notinha no canto da página contando que Roberto Santoro havia se suicidado no xadrez. Dona Maria Conseição declarou em entrevista: "Sou uma velha frágil e não tenho mais quem cuide de mim. O diabo é traiçoeiro com os justos".