9.8.07

Um conselho de amigo

Tenho à minha
direita uma garrafa
de café cheia até
a boca – garrafa
bacana, laminada por
dentro e com
um isopor que trabalha
imóvel pra que o calor
se mantenha negro,
não se perca
no vento como
as palavras de mais
um poema inútil.

À esquerda, o maço de
cigarro que se queima
e se deixa virar cinza,
que te escurece
o pulmão e te dá
de presente o câncer
que vai evitar
tua vida anciã.

Meu corpo frágil de
carne e osso e sangue
está no meio, com os
olhos estalados
e as garras de fera que
escrevem estas palavras
nascidas para a
morte.

A vida
se embebeda de cafeína
para que eu não durma
enquanto sou jovem, para
que eu aproveite enquanto
meu caralho
se ergue diante
daquela japonesinha,
para que eu possa
acender nela
um sorriso de atrito
entre as pernas
de pantera e sugar-lhe
o suspiro da boca.

A vida
enche o peito de
fumaça para que não
dure mais que o suficiente,
para que o tempo
não deixe a pançudinha que
você tanto ama
limpar tuas
fezes numa cama
amarelada de velhice,
para que teus filhos
não te vejam esquecer
seus nomes e a feição
de suas faces.

É a vida
que se manifesta nesse
cheiro azedo
de suor, nesse
aroma de água quente
de café, nessa
fumaça que me
escapa dos pulmões
e sussurra com
a brisa em meus
ouvidos:

“viver é um
êxtase: não se perca
para aeternidade”.