26.8.07

Sete passos para produzir uma loucura

1 - Atchin

Espirro. A cabeça se mexe vorazmente. Aí já há a loucura, o começo dela. O beijo da loucura chupando o teu nariz escorrendo, e muito mais nojo. O cristal se trinca: logo vai quebrar, e não haverá volta. A doença, a única doença que te abate não se enraíza em teus nervos e em tua massa cinzenta. Não, não é isso. Não há doença no louco, a não ser a gripe que chicoteia sua cabeça dura.

2 - Cof Cof

Tosse-tosse. Leve tossinha que te faz botar a mão na boca: o instinto assassino te encarna nas veias. Não, você não suporta mais a mentira: deve haver a verdade, e é essa verdade que você deve buscar nas árvores, na carne, nos ossos de ferro e fogo. Chega dessa falsidade, senhores, amigos, parceiros: quem são vocês por trás da fina ironia? O louco, esse doente que tanto perturba e corrói a idéia dos instintos humanos, esse guardião feroz de si mesmo não tem porque mentir – muito menos aceitar suas mentiras. Agora é a hora de forçar o cristal trincado: preparem-se, senhores, para o grande espetáculo da martelada.

3 - HMMMRRRRRRRUUUU

Fungada brutal. O desprezo de dentro percorre as narinas com a força de um elefante-rei. Engula, engula, engula esse nojo, esse teu nojo, esse nojo dentro de você! Isso, garoto... isso... escuta o barulho de dentro pra dentro: você não precisa do ar pra te ouvir, ouça-se no vácuo. Pois o que é a loucura, senão a hora exata de aceitar a solidão? Ah, sim! Estar só, mesmo que cercado de pessoas estranhas, olhar pro mar e ver o mar, olhar pras árvores e ver as árvores, olhar pro catarro imundo que será digerido como suco de merda-qualquer.

4 - PCOHHHH

Cuspa pra fora, cuspa. Agora sim, agora o braço morreu-se com a mão e o martelo, e a fina e frágil parede de cristal desabou. O louco foi produzido. A verdade foi produzida. Dizem certos cientistas que a verdade é aquela coisa oculta que está em todas as coisas, que espera o momento certo para ser revelada, como se a célula sempre fosse célula, esperando pelos olhos do microscópio. Mas a ciência não são as coisas, mas as coisas que dizemos sobre as coisas. A verdade não está ali, não é a mesma, eterno pilar de diamante onde a ciência tenta pichar e apagar suas idéias. Não! O pilar é outro, é sempre produzido, é a manufatura, são palavras de alvenaria. O louco? Ora, o louco é esse produto, onde há a fábrica, o manicômio, teu pai, tua mãe, a solidão, a verdade, todos os tantos mono-Deuses únicos que habitam nosso cotidiano, a ciência, o médico, teus amigos. O louco não nasceu louco, nem teve seus nervos esmagados por uma bigorna. Agora é a hora de cuspir pra fora a loucura produzida em tua garganta infeccionada, garoto! Agora é a hora de jogar fora tua doença...

5 - .......

Fecha os olhos cheios de remela (ou ramela, como diria minha avó que nem conheci). Esmaga e compacta essa sujeira na pressão das pálpebras, concentra-se nela. Olha, garoto: o que você viu até aqui era a sujeira dos outros. Mas agora, olha a tua própria. Porque não adianta mais você olhar pro outro lado da ponte. Você está sozinho agora, amigo! Inclusive, este tolo que te diz essas coisas é só o embrião da tua esquizofrenia: é ela, meu amigo, que faz com que você se diga a todo o momento como deveriam ser as coisas. Dizem que o louco, para ser louco e manter-se louco, precisa quebrar a norma, que ele depende da visão dos outros, que só existe por existirem os não loucos. Mentira, amigo: o louco se produz tanto quanto produzem o louco. Atira-se no teu universo cósmico... onde estão os dragões? Mas não, amigo, não use drogas nem fume aquele fedorento cigarro de palha. ME DEIXE FUMAR MEU CIGARRO DE PALHA! Não, amigo, faz mal pra saúde... o corpo, esse amontoado de comida que se reorganiza, esse mapa de Deus costurado com ossos, isso que você sente quando se toca... isso é você! E é porque vai morrer – e morrer sozinho – que você deve conservá-lo! Mas qual o sentido disso, besta paralítica: o niilismo da morte, a vã filosofia da razão. Não! Não e Não! Não deixo de morrer porque estou em depressão – mas o que é a depressão senão a doença das sinapses que caminham errado, dos pensamentos que te enganam, da infelicidade por saber que você deve e não pode alcançar a felicidade? Os olhos dizem muitas coisas, você o diz! Os outros? Que raio são os outros?: o louco se produz, é auto-suficiente.

6 - Takk Takk Takk

Bata, bata, bata teu gigantesco crânio de mastodonte na parede. Espere o sangue escorrer do teu imenso couro capilar (ou cabelar, como diria a moça feia que vigiou e puniu meu carro ontem à noite). Obrigado por esse cheiro de ferro, essa fissura da pele, essa escavação das memórias. A razão, amigo! A razão! Dizem que o louco não a tem, que vive sem entender as coisas. Mas não, não é por aí... é justamente o contrário! Pensa, e quanto mais pensa mais se enlouquece: Nietzsche, Althusser, o garoto prodígio da UEL que se explodiu contra o chão naquele fatídico dia em que pulou do prédio. Mata tua mulher!, mata tua mulher!, gritava a depressão no ouvido do marxista. E ele o fez, mas era a doença – essa doença, a loucura, a revolução proletária, o aluno gayzinho que havia escrito a História da Loucura – que o libertou dos grilhões da penitenciária e o acorrentou em um manicômio qualquer. Por que manter o louco livre?, se ele é livre em sua loucura? Não me falta razão, louco amigo, não te falta: a tenho, amigo, a tens em excesso. É este o produto da loucura: leia um cara como Foucault: veja!, não há como não endoidar! Você se vira do avesso, bota a mão na rachadura da testa e tenta puxar de lá qual o sentido de tudo isso... mas não há nada além do vácuo! – há quem diga que vácuo é alguma coisa, não acha? Riam, riam, riam da razão... você é um idiota como eu nunca havia visto, fica aê pensando nessas coisas... é tudo besteira! Comendo terra, rolando na lama, berrando o nome dela até a garganta sangrar... Você endoidou, cara... não consegue entender por que ela não te ama?... não consegue entender por que te vêem assim com a desconfiança?, por que você está sozinho?, por que te acham um tarado por estudar a sexualidade?, por que ela não responde aquela maldita carta?: são mais e mais problemas para a razão, essa vã razão que pisoteia tua mente. E são tantas razões, e tão contraditórias: aceite-as como religião, como um Deus a mais no mundo dos homens: aceite-a como se aceita a loucura.

7 - AHHHHHHHHHH!

Grita, macaco-urso da Sibéria: grita como nunca antes gritou. Ouve o eco da tua voz batendo na parede cavernosa dos edifícios. Não há como voltar, senhor: você é um louco. Mais um louco, mais um pirado, mais um doente solitário, mais um pixel estranho na foto de Londrina no Google Earth, mais um bêbado jogado debaixo do chuveiro esperando a lama das consciência descer pelo ralo. Louco, cara!, pirado... Vo-cê é lo-u-co! louco, louco, louco-louco-louco!
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHHHHHHHHHH!HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O BURACO NEGRO DOS OLHOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

20.8.07

Carta surrada escrita para a solidão

Andar pelas ruas de
Londrina e ver
o calçadão pegando fogo
com o atrito
dos pés que caminham pelo
centro é uma terapia
para alguém que
se sente sozinho. A companhia calada
daqueles que não te enxergam
é um doce sabor para quem
se procura na multidão
e em espelhos de
banheiros públicos.

Sinto o cheiro da
rua: é a mistura de
gordura, suor, pastel,
pão de queijo, flores
cotidianas, dinheiro
surrado, gases digeridos e bacon
frito. É o perfume
de um dia qualquer
que nunca
paramos
para descrever, nunca reparamos
com olhos pacientes,
um dia onde sou espião
e intruso.

Sentado nesse banco com
um lápis na mão, torço desesperadamente
para que nenhuma pessoa
se sente ao meu lado e pergunte
o que escrevo ou o que
penso ou o que me aflige. Quero mesmo
é olhar sem ser visto
e esperar meu intestino
fazer seu
serviço sujo, digerir
essa coxinha que acabei de comer
com instinto assassino. Quero um momento,
esse momento: quero a solidão
de ser único, de só ser lembrado
pelo esquecimento.

Ah!, brisa enfurecida de fumaça
que atravessa a cidade
e me toca as bochechas
barbadas!, eu me sinto feliz como
um amor prostituído!, me sinto
perdido nesta multidão, me sinto
mais vivo e mais longe de todos!

Escutem meu poema de silêncio, ruas de Londrina:
estar sozinho é não se ver nos outros.

13.8.07

Carta de despedida ao meu coração

Arrancaram meu
coração e me jogaram
numa banheira
cheia de gelo. Eu tinha
algo que me pesava
no peito (e não eram
têtas!), mas agora
só tenho uma cicatriz
que corre a profunda superficialidade
da pele. Ah, meu pesado
coração de chumbo
embebedado em
sangue de mercúrio, é incrível
(de não se crer, mesmo!) o
quanto eu não sinto
tua falta enquanto
vejo esse sol se pôr
nesse céu de
cobre e estanho.

Agora, ao lado dessa
vadia ibitinguense esticada
sem roupas numa cama
amarelada, não consigo
deixar de pensar o quanto
você era um trambolho
inútil no meu corpo
em que a guerra entre
testículos começava
a se manifestar.

Por longos e longos anos,
séculos e milênios te perseguiram
com a grandeza da metáfora
do amor, da vida, do pulsar
das emoções manifestas, dos
devaneios abstratos por trás
de um par de seios (quanta bobagem!,
os seios eram o próprio
devaneio). Por muito
tempo você foi o fodão
de todos os poemas
sentimentais; ao lado da
lua, você foi a estrela, o astro
de todos os espetáculos
do clichê e da infância da
carne.

Mas agora, meu velho, você não
serve pra porra
nenhuma, sequer vai
ser lembrado com menção
honrosa, prêmio de consolação,
palmas premeditadas pelo
produtor da premiação. Foi-se
seu tempo,velho amigo de
poesia, e você não passa de
um músculo inútil, de um
primo bastardo do
mamilo masculino.

Ouso dizer, com a mesma língua
que diz as coisas mais belas
e toca com carinho o entrepernas
de putas-donzelas, que você
não serve nem pra
um poeminha
sobre taquicardia.

Você, amigo, que
sempre esteve perdido e
sempre perdeu nessa trajetória
de amores adolescentes, agora
perdeu-se a si mesmo quando
deixei que te levassem embora
na noite passada.

Desculpe se não
lutei por você, se não me
apeguei à paixão e resisti
pra que aquela japonesinha
não te levasse como
troféu e te colocasse num
pote de picles. É que ontem,
acordando ao lado dessa garota
especial que sequer
sei o nome, me toquei
que na estranha anatomia
das metáforas, não há personagem
que merecesse ser mais homenageado
que a uretra.

Sabe, cara... você
é muito cheio de si,
se incha e se acha o último
pedaço da torta de morangos,
se embebeda de sangue e
acha bonito quando falam
teu nome por qualquer
coisa à toa. Você é um fresco
muito falso, cara; é praticamente uma
Rita Cadilac chupando
um cacete pelo sonho
de dignidade e casa
própria. Sem contar
aquela sua mania de
achar que é o próprio
amor encarnado no
calor da carne.

A uretra é muito mais
legal!, trocentas vezes
mais bacana! Por ela correm os
ricos e os pobres, o mundo
e o sub-mundo, o amor
e o ódio, teus filhos
e o lixo do metabolismo. É
na uretra, solitária esquecida,
estrada fantasma dos
poemas apaixonados, que
o amor verdadeiro
se manifesta e inunda e fode e funde
o mundo de fora
com o mundo
de dentro. É ali, nos
trilhos viscosos da
alegria, que a vida
de esperma e juventude
se confunde
com a morte de
urina que amarela
os lençóis da velhice. Sacou, meu velho? A uretra
pega infecção, está exposta
ao nojo e à ingratidão. E você
está aí, protegido por quem
sequer te acariciou
com as
mãos.

Eu trocaria todos os corações
do mundo por uma
única uretra. Talvez por
isso eu tenha deixado
você ir embora, meu
velho amigo, junto com
aquele pôr-do-sol.

Enfim minhas costas não
doem: é um peso a menos
sobre meus nervos. Me sinto
leve como uma bolinha
de papel que cai dum hospital metropolitano.

Onde quer que esteja,
seja lá com quem, tomara que
você seja feliz como todos
os corações sempre querem
ser. Tomara, cara, que você
finalmente seja feliz em
seu sonho platônico.

Eu pensarei em você com carinho
quando fumar
meu próximo cigarro e apagá-lo
em meus pulmões. Eu pensarei
com carinho em nossos dias
juntos toda vez que gozar
em uma vadia
qualquer. Eu pensarei
em você como quem
vê fotografias velhas
guardadas em
caixas de
sapato.

9.8.07

Cancrocronóide

A cama era onde curtia em seus dias mofados. A velha lembrava um grande e enrugado pepino boiando na conserva de um pote de picles (isso me lembra que meu amigo Arthur costumava dizer que "picles" é a palavra mais feia da língua portuguesa). Não cheirava a vinagre, mas havia algum ácido em vapores que invadia aquele lugar: talvez o resto de um vómito, ou um peido que escapou debaixo das cobertas da velha; quem sabe não era a urina que amarelava a visão daquele quarto imundo.

Cinco horas e cinquenta e nove segundos de uma manhã gelada, e lá estava Maria Conseição acordando novamente um minuto antes do despertador tocar. Era um rádio-relógio que tinha na cabeceira da cama, grande e assustador - parecia com uma peça de nave alienígina que caiu na atmosfera e foi encontrada por Rafael, seu neto maconheiro que havia dado o anacrônico presente na semana passada, a mesma em que o diabo entrou na casa da velha.

Foi de tardezinha quando Maria Conseição invadiu, com a bengala na mão, o apartamento vizinho do filho gritando "socorro, socorro, estou morrendo, estou morrendo". Escorrendo ranho e sangue, a velha segurava sobre o nariz estourado com uma toalha amarelada que rapidamente enxarcou: era feio como o alface da minha merda que bóia sobre a água da privada.

- Deus! Ligue pro hospital, Julia! Minha mãe está morrendo - disse o filho da velha para a esposa.

- Ai, eu não aguento com sangue, Roberto... tire essa velha de perto de mim... acho que vou vomitar... acho que vou desmaiar...

A velha gritava um gemido rouco e fraco: era a morte, ela a sentia. O diabo havia lhe avisado alguns dias antes, quando estava batendo a bengala no chão e uma xícara caiu do armário. Era o aviso, os cacos da própria velha. O diabo manda o recado: vai morrer, velha, e que Deus tenha piedade. Agarrou-se ao terço que carrega no bolso e chorou sem parar por cinco minutos as lágrimas que se esforçavam para escapar daquele corpo seco e enrugado.

Chegando ao pronto socorro, Roberto gritou desesperadamente "minha mãe está morrendo!, minha mãe está morrendo!". Quando a enfermeira chegou e mandou aguardar o médico que estava ocupado atendendo uma outra senhora, o filho da velha ameaçou a enfermeira com o canivete que costumava carregar no bolso.

- A senhorita trate de chamar o médico agora!, antes que eu faça uma loucura.

Com medo, a jovem correu pra dentro chamar o médico. Enquanto Dr. Jonas atendia a velha estancando o sangramento do nariz com um simples pedaço de gaze preso com esparadrapo, a enfermeira ligou para a polícia explicando o ocorrido. Chegaram numa viatura e levaram Roberto pra delegacia, enquanto a velha foi deixada no hospital.

- Por que, doutor? Por que comigo o diabo apronta? Logo comigo, que sempre fui boa por toda a vida.

- A senhora vai passar bem. Provavelmente é um problema de sangue fino. Nada grave, minha senhora. Se a senhora quiser, pode até doar o coração, de tão forte que está. É só parar de tomar esses montes de aspirina pra que seu sangue volte a engrossar.

Um táxi chegou à porta do hospital para levar a velha para casa. O carro estava limpinho, e o motorista, com medo de que o sangue da velha o sujasse por dentro, puxou um plástico sobre o banco e a levou para casa. A corrida custou 23 reais e 60 centavos, mas a velha só pagou 23. Pouco dinheiro pelo sofrimento de ter que ouvir as insistentes lamentações de Dona Maria Conceição, que contou todo o ocorrido durante o longo caminho de 10 quilómetros que percorreram na cidade.

- O senhor sabe que só estou viva porque Deus botou sua mão em mim. O diabo está sempre a espreita. O doutor disse que tenho o coração tão bom que eu poderia até doá-lo, se quisesse. Diga se isso não é porque Deus me protege? Diga se isso não é obra de Deus?

O motorista concordou com um leve movimento da cabeça. Não conseguia pensar em nada além daquele mau cheiro insuportável.

No outro dia, saiu no jornal que um louco invadiu o hospital com o canivete. Ele havia sido preso e não tinha direito a fiança. Uma semana mais tarde, o jornal soltou uma notinha no canto da página contando que Roberto Santoro havia se suicidado no xadrez. Dona Maria Conseição declarou em entrevista: "Sou uma velha frágil e não tenho mais quem cuide de mim. O diabo é traiçoeiro com os justos".

Um conselho de amigo

Tenho à minha
direita uma garrafa
de café cheia até
a boca – garrafa
bacana, laminada por
dentro e com
um isopor que trabalha
imóvel pra que o calor
se mantenha negro,
não se perca
no vento como
as palavras de mais
um poema inútil.

À esquerda, o maço de
cigarro que se queima
e se deixa virar cinza,
que te escurece
o pulmão e te dá
de presente o câncer
que vai evitar
tua vida anciã.

Meu corpo frágil de
carne e osso e sangue
está no meio, com os
olhos estalados
e as garras de fera que
escrevem estas palavras
nascidas para a
morte.

A vida
se embebeda de cafeína
para que eu não durma
enquanto sou jovem, para
que eu aproveite enquanto
meu caralho
se ergue diante
daquela japonesinha,
para que eu possa
acender nela
um sorriso de atrito
entre as pernas
de pantera e sugar-lhe
o suspiro da boca.

A vida
enche o peito de
fumaça para que não
dure mais que o suficiente,
para que o tempo
não deixe a pançudinha que
você tanto ama
limpar tuas
fezes numa cama
amarelada de velhice,
para que teus filhos
não te vejam esquecer
seus nomes e a feição
de suas faces.

É a vida
que se manifesta nesse
cheiro azedo
de suor, nesse
aroma de água quente
de café, nessa
fumaça que me
escapa dos pulmões
e sussurra com
a brisa em meus
ouvidos:

“viver é um
êxtase: não se perca
para aeternidade”.

5.8.07

A última carta a uma velha amiga

Engraçado como
você não está mais
no porta retrato do
meu quarto, sorrindo
aquele sorriso
bonito que me fazia
pensar quase todo final de
semana “por onde
anda essa guria aos
domingos, enquanto eu escrevo cartas
para um porta-
retrato?”

É engraçado pensar
que não
há foto na parede e, mesmo
assim, dá pra se perguntar
todo domingo
“por que canto
de São Paulo anda
ela agora? Será que
levou guarda chuva
ou está correndo
pela chuva com
o mesmo sorriso molhado
daquela foto guardada
na gaveta?”

Engraçado, menina, como eu
me lembrei
da foto nesse domingo, não porque a vi,
ou porque te vi
ou porque
pensei em você subitamente.

Eu rio
sozinho só de
pensar que
me lembrei de
você porque
estou
morrendo de vontade
de sair correndo
pela chuva, deitar em cima
da grama e sorrir
aquele seu sorriso
bobo que eu me lembrei
sem ao
menos
ver o retrato – eu
via na lembrança
o momento
exato
,guria,
o momento exato
em que o sorriso nasceu.

Desculpe se
não penso direito nessas palavras,
se elas
soam meio desesperadas,
mas é que o
poema nasceu, e eu não
pude segurá-lo.

Espero que sempre chova
em São Paulo.

Beijos,

Gabriel.

1.8.07

Continho Paulista

- Bom dia padre. A que devo a honra?
- Na verdade, filho, algo muito ruim aconteceu.
- Nada pode ser pior que perder esse jogo do Coringão, padre.
- Pois é, filho, concordo...
- Pois diga então, seu padre: o que que houve?
- Sua mãe morreu.
- Meu Deus!, que horrível...
- Pois é, preciso saber se o senhor quer que eu faça a unção. Sabe, hoje é domingo, vai passar o Palmeiras na tevê. Sabe como é, né? Não há nada pior do que perder o Verdão em campo...