Sete passos para produzir uma loucura
1 - Atchin
Espirro. A cabeça se mexe vorazmente. Aí já há a loucura, o começo dela. O beijo da loucura chupando o teu nariz escorrendo, e muito mais nojo. O cristal se trinca: logo vai quebrar, e não haverá volta. A doença, a única doença que te abate não se enraíza em teus nervos e em tua massa cinzenta. Não, não é isso. Não há doença no louco, a não ser a gripe que chicoteia sua cabeça dura.
2 - Cof Cof
Tosse-tosse. Leve tossinha que te faz botar a mão na boca: o instinto assassino te encarna nas veias. Não, você não suporta mais a mentira: deve haver a verdade, e é essa verdade que você deve buscar nas árvores, na carne, nos ossos de ferro e fogo. Chega dessa falsidade, senhores, amigos, parceiros: quem são vocês por trás da fina ironia? O louco, esse doente que tanto perturba e corrói a idéia dos instintos humanos, esse guardião feroz de si mesmo não tem porque mentir – muito menos aceitar suas mentiras. Agora é a hora de forçar o cristal trincado: preparem-se, senhores, para o grande espetáculo da martelada.
3 - HMMMRRRRRRRUUUU
Fungada brutal. O desprezo de dentro percorre as narinas com a força de um elefante-rei. Engula, engula, engula esse nojo, esse teu nojo, esse nojo dentro de você! Isso, garoto... isso... escuta o barulho de dentro pra dentro: você não precisa do ar pra te ouvir, ouça-se no vácuo. Pois o que é a loucura, senão a hora exata de aceitar a solidão? Ah, sim! Estar só, mesmo que cercado de pessoas estranhas, olhar pro mar e ver o mar, olhar pras árvores e ver as árvores, olhar pro catarro imundo que será digerido como suco de merda-qualquer.
4 - PCOHHHH
Cuspa pra fora, cuspa. Agora sim, agora o braço morreu-se com a mão e o martelo, e a fina e frágil parede de cristal desabou. O louco foi produzido. A verdade foi produzida. Dizem certos cientistas que a verdade é aquela coisa oculta que está em todas as coisas, que espera o momento certo para ser revelada, como se a célula sempre fosse célula, esperando pelos olhos do microscópio. Mas a ciência não são as coisas, mas as coisas que dizemos sobre as coisas. A verdade não está ali, não é a mesma, eterno pilar de diamante onde a ciência tenta pichar e apagar suas idéias. Não! O pilar é outro, é sempre produzido, é a manufatura, são palavras de alvenaria. O louco? Ora, o louco é esse produto, onde há a fábrica, o manicômio, teu pai, tua mãe, a solidão, a verdade, todos os tantos mono-Deuses únicos que habitam nosso cotidiano, a ciência, o médico, teus amigos. O louco não nasceu louco, nem teve seus nervos esmagados por uma bigorna. Agora é a hora de cuspir pra fora a loucura produzida em tua garganta infeccionada, garoto! Agora é a hora de jogar fora tua doença...
5 - .......
Fecha os olhos cheios de remela (ou ramela, como diria minha avó que nem conheci). Esmaga e compacta essa sujeira na pressão das pálpebras, concentra-se nela. Olha, garoto: o que você viu até aqui era a sujeira dos outros. Mas agora, olha a tua própria. Porque não adianta mais você olhar pro outro lado da ponte. Você está sozinho agora, amigo! Inclusive, este tolo que te diz essas coisas é só o embrião da tua esquizofrenia: é ela, meu amigo, que faz com que você se diga a todo o momento como deveriam ser as coisas. Dizem que o louco, para ser louco e manter-se louco, precisa quebrar a norma, que ele depende da visão dos outros, que só existe por existirem os não loucos. Mentira, amigo: o louco se produz tanto quanto produzem o louco. Atira-se no teu universo cósmico... onde estão os dragões? Mas não, amigo, não use drogas nem fume aquele fedorento cigarro de palha. ME DEIXE FUMAR MEU CIGARRO DE PALHA! Não, amigo, faz mal pra saúde... o corpo, esse amontoado de comida que se reorganiza, esse mapa de Deus costurado com ossos, isso que você sente quando se toca... isso é você! E é porque vai morrer – e morrer sozinho – que você deve conservá-lo! Mas qual o sentido disso, besta paralítica: o niilismo da morte, a vã filosofia da razão. Não! Não e Não! Não deixo de morrer porque estou em depressão – mas o que é a depressão senão a doença das sinapses que caminham errado, dos pensamentos que te enganam, da infelicidade por saber que você deve e não pode alcançar a felicidade? Os olhos dizem muitas coisas, você o diz! Os outros? Que raio são os outros?: o louco se produz, é auto-suficiente.
6 - Takk Takk Takk
Bata, bata, bata teu gigantesco crânio de mastodonte na parede. Espere o sangue escorrer do teu imenso couro capilar (ou cabelar, como diria a moça feia que vigiou e puniu meu carro ontem à noite). Obrigado por esse cheiro de ferro, essa fissura da pele, essa escavação das memórias. A razão, amigo! A razão! Dizem que o louco não a tem, que vive sem entender as coisas. Mas não, não é por aí... é justamente o contrário! Pensa, e quanto mais pensa mais se enlouquece: Nietzsche, Althusser, o garoto prodígio da UEL que se explodiu contra o chão naquele fatídico dia em que pulou do prédio. Mata tua mulher!, mata tua mulher!, gritava a depressão no ouvido do marxista. E ele o fez, mas era a doença – essa doença, a loucura, a revolução proletária, o aluno gayzinho que havia escrito a História da Loucura – que o libertou dos grilhões da penitenciária e o acorrentou em um manicômio qualquer. Por que manter o louco livre?, se ele é livre em sua loucura? Não me falta razão, louco amigo, não te falta: a tenho, amigo, a tens em excesso. É este o produto da loucura: leia um cara como Foucault: veja!, não há como não endoidar! Você se vira do avesso, bota a mão na rachadura da testa e tenta puxar de lá qual o sentido de tudo isso... mas não há nada além do vácuo! – há quem diga que vácuo é alguma coisa, não acha? Riam, riam, riam da razão... você é um idiota como eu nunca havia visto, fica aê pensando nessas coisas... é tudo besteira! Comendo terra, rolando na lama, berrando o nome dela até a garganta sangrar... Você endoidou, cara... não consegue entender por que ela não te ama?... não consegue entender por que te vêem assim com a desconfiança?, por que você está sozinho?, por que te acham um tarado por estudar a sexualidade?, por que ela não responde aquela maldita carta?: são mais e mais problemas para a razão, essa vã razão que pisoteia tua mente. E são tantas razões, e tão contraditórias: aceite-as como religião, como um Deus a mais no mundo dos homens: aceite-a como se aceita a loucura.
7 - AHHHHHHHHHH!
Grita, macaco-urso da Sibéria: grita como nunca antes gritou. Ouve o eco da tua voz batendo na parede cavernosa dos edifícios. Não há como voltar, senhor: você é um louco. Mais um louco, mais um pirado, mais um doente solitário, mais um pixel estranho na foto de Londrina no Google Earth, mais um bêbado jogado debaixo do chuveiro esperando a lama das consciência descer pelo ralo. Louco, cara!, pirado... Vo-cê é lo-u-co! louco, louco, louco-louco-louco!
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHHHHHHHHHH!HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O BURACO NEGRO DOS OLHOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Espirro. A cabeça se mexe vorazmente. Aí já há a loucura, o começo dela. O beijo da loucura chupando o teu nariz escorrendo, e muito mais nojo. O cristal se trinca: logo vai quebrar, e não haverá volta. A doença, a única doença que te abate não se enraíza em teus nervos e em tua massa cinzenta. Não, não é isso. Não há doença no louco, a não ser a gripe que chicoteia sua cabeça dura.
2 - Cof Cof
Tosse-tosse. Leve tossinha que te faz botar a mão na boca: o instinto assassino te encarna nas veias. Não, você não suporta mais a mentira: deve haver a verdade, e é essa verdade que você deve buscar nas árvores, na carne, nos ossos de ferro e fogo. Chega dessa falsidade, senhores, amigos, parceiros: quem são vocês por trás da fina ironia? O louco, esse doente que tanto perturba e corrói a idéia dos instintos humanos, esse guardião feroz de si mesmo não tem porque mentir – muito menos aceitar suas mentiras. Agora é a hora de forçar o cristal trincado: preparem-se, senhores, para o grande espetáculo da martelada.
3 - HMMMRRRRRRRUUUU
Fungada brutal. O desprezo de dentro percorre as narinas com a força de um elefante-rei. Engula, engula, engula esse nojo, esse teu nojo, esse nojo dentro de você! Isso, garoto... isso... escuta o barulho de dentro pra dentro: você não precisa do ar pra te ouvir, ouça-se no vácuo. Pois o que é a loucura, senão a hora exata de aceitar a solidão? Ah, sim! Estar só, mesmo que cercado de pessoas estranhas, olhar pro mar e ver o mar, olhar pras árvores e ver as árvores, olhar pro catarro imundo que será digerido como suco de merda-qualquer.
4 - PCOHHHH
Cuspa pra fora, cuspa. Agora sim, agora o braço morreu-se com a mão e o martelo, e a fina e frágil parede de cristal desabou. O louco foi produzido. A verdade foi produzida. Dizem certos cientistas que a verdade é aquela coisa oculta que está em todas as coisas, que espera o momento certo para ser revelada, como se a célula sempre fosse célula, esperando pelos olhos do microscópio. Mas a ciência não são as coisas, mas as coisas que dizemos sobre as coisas. A verdade não está ali, não é a mesma, eterno pilar de diamante onde a ciência tenta pichar e apagar suas idéias. Não! O pilar é outro, é sempre produzido, é a manufatura, são palavras de alvenaria. O louco? Ora, o louco é esse produto, onde há a fábrica, o manicômio, teu pai, tua mãe, a solidão, a verdade, todos os tantos mono-Deuses únicos que habitam nosso cotidiano, a ciência, o médico, teus amigos. O louco não nasceu louco, nem teve seus nervos esmagados por uma bigorna. Agora é a hora de cuspir pra fora a loucura produzida em tua garganta infeccionada, garoto! Agora é a hora de jogar fora tua doença...
5 - .......
Fecha os olhos cheios de remela (ou ramela, como diria minha avó que nem conheci). Esmaga e compacta essa sujeira na pressão das pálpebras, concentra-se nela. Olha, garoto: o que você viu até aqui era a sujeira dos outros. Mas agora, olha a tua própria. Porque não adianta mais você olhar pro outro lado da ponte. Você está sozinho agora, amigo! Inclusive, este tolo que te diz essas coisas é só o embrião da tua esquizofrenia: é ela, meu amigo, que faz com que você se diga a todo o momento como deveriam ser as coisas. Dizem que o louco, para ser louco e manter-se louco, precisa quebrar a norma, que ele depende da visão dos outros, que só existe por existirem os não loucos. Mentira, amigo: o louco se produz tanto quanto produzem o louco. Atira-se no teu universo cósmico... onde estão os dragões? Mas não, amigo, não use drogas nem fume aquele fedorento cigarro de palha. ME DEIXE FUMAR MEU CIGARRO DE PALHA! Não, amigo, faz mal pra saúde... o corpo, esse amontoado de comida que se reorganiza, esse mapa de Deus costurado com ossos, isso que você sente quando se toca... isso é você! E é porque vai morrer – e morrer sozinho – que você deve conservá-lo! Mas qual o sentido disso, besta paralítica: o niilismo da morte, a vã filosofia da razão. Não! Não e Não! Não deixo de morrer porque estou em depressão – mas o que é a depressão senão a doença das sinapses que caminham errado, dos pensamentos que te enganam, da infelicidade por saber que você deve e não pode alcançar a felicidade? Os olhos dizem muitas coisas, você o diz! Os outros? Que raio são os outros?: o louco se produz, é auto-suficiente.
6 - Takk Takk Takk
Bata, bata, bata teu gigantesco crânio de mastodonte na parede. Espere o sangue escorrer do teu imenso couro capilar (ou cabelar, como diria a moça feia que vigiou e puniu meu carro ontem à noite). Obrigado por esse cheiro de ferro, essa fissura da pele, essa escavação das memórias. A razão, amigo! A razão! Dizem que o louco não a tem, que vive sem entender as coisas. Mas não, não é por aí... é justamente o contrário! Pensa, e quanto mais pensa mais se enlouquece: Nietzsche, Althusser, o garoto prodígio da UEL que se explodiu contra o chão naquele fatídico dia em que pulou do prédio. Mata tua mulher!, mata tua mulher!, gritava a depressão no ouvido do marxista. E ele o fez, mas era a doença – essa doença, a loucura, a revolução proletária, o aluno gayzinho que havia escrito a História da Loucura – que o libertou dos grilhões da penitenciária e o acorrentou em um manicômio qualquer. Por que manter o louco livre?, se ele é livre em sua loucura? Não me falta razão, louco amigo, não te falta: a tenho, amigo, a tens em excesso. É este o produto da loucura: leia um cara como Foucault: veja!, não há como não endoidar! Você se vira do avesso, bota a mão na rachadura da testa e tenta puxar de lá qual o sentido de tudo isso... mas não há nada além do vácuo! – há quem diga que vácuo é alguma coisa, não acha? Riam, riam, riam da razão... você é um idiota como eu nunca havia visto, fica aê pensando nessas coisas... é tudo besteira! Comendo terra, rolando na lama, berrando o nome dela até a garganta sangrar... Você endoidou, cara... não consegue entender por que ela não te ama?... não consegue entender por que te vêem assim com a desconfiança?, por que você está sozinho?, por que te acham um tarado por estudar a sexualidade?, por que ela não responde aquela maldita carta?: são mais e mais problemas para a razão, essa vã razão que pisoteia tua mente. E são tantas razões, e tão contraditórias: aceite-as como religião, como um Deus a mais no mundo dos homens: aceite-a como se aceita a loucura.
7 - AHHHHHHHHHH!
Grita, macaco-urso da Sibéria: grita como nunca antes gritou. Ouve o eco da tua voz batendo na parede cavernosa dos edifícios. Não há como voltar, senhor: você é um louco. Mais um louco, mais um pirado, mais um doente solitário, mais um pixel estranho na foto de Londrina no Google Earth, mais um bêbado jogado debaixo do chuveiro esperando a lama das consciência descer pelo ralo. Louco, cara!, pirado... Vo-cê é lo-u-co! louco, louco, louco-louco-louco!
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHHHHHHHHHH!HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O BURACO NEGRO DOS OLHOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
